“Meu avô deixou arsenal valioso para luta contra capitalismo”, diz neto de Trotsky

Foto: Eduardo Febbro

Em entrevista à Carta Maior publicada em 02/08/12, Esteban Volkov, neto do revolucionário russo León Trotsky e testemunha do assassinato do avô por um agente stalinista, fala sobre as memórias que conserva do avô e defende a atualidade do pensamento e da prática de Trotsky.
                                                                                                                                    Por  Eduardo Febbro – Cidade do México

Cidade do México – Esteban Volkov atravessou um século sem perder nada do que deixou para trás nem do novo no qual vive como se fosse um contemporâneo recém-chegado a este mundo de tecnologia e mentiras globalizadas. Esteban Volkov falava em francês com seu avô León Trotsky, cuja chegada ao México está completando 75 anos. O revolucionário russo havia fugido dos algozes de Stalin para se instalar neste país. Trotsky e sua mulher trouxeram Esteban Volkov de Paris. A história de Volkov criança é uma tragédia que a imensa alegria com que hoje se expressa não permite sequer adivinhar. Esteban Volkov não só é neto de Trotsky, mas também a única testemunha ainda com vida do assassinato de Trotsky por um agente de Stalin, o espanhol Ramón Mercader.

O pai de Volkov foi deportado para a Sibéria em 1928 e desapareceu em um Gulag quando foi enviado para lá em 1935. Sua mãe escapou da URSS com ele e se reuniu com os Trotsky na ilha turca de Princípios. A vida não lhe deu descanso e ela se suicidou em Berlim em 1933. Esteban Volkov ficou só na capital alemã até que foi enviado a um internato de Viena e depois a Paris.

Trotsky e sua esposa estavam exilados no México e conseguiram trazê-lo com eles. Houve um primeiro atentado contra Trotsky do qual toda a família saiu ilesa. Mas chegou um infiltrado, Ramón Mercader. No dia 20 de agosto de 1940, quando Esteban Volkov voltou do colégio, encontrou Trotsky com o crânio quebrado a marteladas. Volkov conta que Trotsky pediu que afastassem seu neto da cena.

Esteban Volkov cresceu no México. Não faz política. Estudou engenharia química, mas sempre manteve viva a memória de León Trotsky através de um Museu, que é a casa onde viveu com seus avós, Trotsky e sua mulher. Hoje tem 86 anos e uma memória que não falha nunca. Em entrevista à Carta Maior, o neto do revolucionário russo evoca aqueles anos, o legado de Trotsky, sua obra, e os estragos do mundo atual.

CM – 75 anos depois da chegada de Trotsky ao México e quando transcorreram 72 anos de seu assassinato, o que a figura e o legado de León Trotsky podem representar hoje. 

EV – Na medida em que o marxismo está adquirindo cada dia mais vigência, apesar de todas as vezes que o enterraram, sempre surge com mais vida. Um dos mensageiros e portadores e guias marxistas mais atuais é, indiscutivelmente, o grande revolucionário León Trotsky. Foi um personagem chave em um dos acontecimentos mais importantes da história contemporânea, que foi a Revolução Russa. Trotsky teve um papel vital nela. Mas o que é mais meritório nele, em todas as etapas nas quais interviu, é o fato de que transcreveu com minúcia toda aquela experiência histórica e política. Trotsky deixou um legado muito valioso, um arsenal ideológico revolucionário de grande atualidade e extremamente fértil e útil para todas as lutas revolucionárias atuais e futuras.

Não resta dúvida de que o capitalismo está demonstrando que é um sistema totalmente obsoleto e injusto e que não cumpre em nada as necessidades do gênero humano. Ao contrário, o capitalismo está destruindo o planeta, está criando mais miséria, mais sofrimento. A necessidade de uma mudança é vital. Tenho certeza de que a maior parte da humanidade tomará consciência desta situação e lutará por outro mundo. É aí onde todo o arsenal ideológico de Trotsky é extremamente valioso. Hoje os meios de comunicação intoxicam as massas e acabam criando isso que Marcuse chamava de uma mentalidade unidimensional. Mas os processos de tomada de consciência são como relâmpagos.

CM – Muitos historiadores consideram que esse arsenal ainda está inexplorado. 

EV – Acontece que é muito vasto: não há uma área, não há um país que Trotsky não tenha considerado em suas análises. Qualquer documento que alguém leia de Trotsky é muito útil e instrutivo e com um grande acerto em suas análises. Por agora não há outra coisa melhor que o socialismo. O marxismo foi o único que fez um diagnóstico acertado do que é o capitalismo. Trotsky fez a mesma análise no que se refere ao que realmente era o burocratismo stalinista. Ninguém melhor que ele! Essa foi sua grande contribuição: ter analisado o bonapartismo stalinista.

Lamentavelmente o trotskismo não escapou do rumo que conhecem todos os partidos políticos. Mas o prognóstico de Trotsky quando dizia “estou seguro da quarta internacional” está aberto, ainda não se cumpriu. Seus seguidores deveriam fazer que isso se tornasse realidade. Não tem que se fechar em uma redoma de cristal. Os partidos devem levar a cabo um trabalho ativo e revolucionário. Não tem que se fechar em um café para discutir e sentir-se grandes teóricos da humanidade.

CM – O México que Trotsky conheceu quando chegou há 75 anos era um país revolucionário. O de hoje é muito diferente. 

EV – Sim, ele chegou ao México quando ainda persistia o espírito e as ondas da
Revolução. Ainda havia um clima revolucionário. Depois veio um processo de industrialização sob um regime capitalista e o México se afastou dos fundamentos da Revolução mexicana.

CM – Curiosamente, você protegeu o legado de Trotsky, mas, entretanto, não incorreu no campo da política. 

EV – Não, claro, eu sou químico. Meus comentários são os do observador científico, não do político. Mas eu vivi em carne própria todo o capítulo que foi a contrarrevolução stalinista. Todo esse clima de assassinatos, de terror, de monstruosas falsificações históricas. Vivi esse clima na própria carne, junto com milhões de seres humanos. Mas eu tenho o privilegio de estar vivo e poder testemunhar. Sabemos que a memória histórica é um dos patrimônios mais importantes do gênero humano. Para poder construir o futuro faz falta essa memória histórica. Um dos grandes crimes de Stalin, além de massacrar milhões de seres humanos, falsificar a história e arrancar páginas e alterar seu conteúdo, foi justamente isto: mutilar e falsificar a história.

CM – Você acredita que os crimes do stalinismo estão mal conservados pela memória em relação aos que Hitler cometeu? 

EV – Indiscutivelmente Hitler foi um grande, grande criminoso, mas nessa competição eu acho que Stalin ganha por muito. Hitler era um assassino frio dentro de sua lógica racista e absurda. Mas Stalin agregou a isso uma dose de crueldade e de sadismo que ninguém superou até agora. Não lhe bastava matar. Eu sou um sobrevivente com sorte.

CM – Você conservou viva a lembrança de Trotsky, por meio do Museu que está em Coyoacán, um pouco para resgatar essa memória? 

EV – Eu continuei morando nessa casa muitos anos com minha avó. Seu desejo sempre foi conservar esse lugar histórico. E não foi sem luta e sem esforço. Os stalinistas do México tentaram em muitas ocasiões aniquilar esse lugar. Até quiseram fazer um jardim de infância! Mas não conseguiram. Eu nunca me interessei pela política, mas por osmose estava a par de todas as dinâmicas das lutas. Mas Trotsky sempre me protegeu da política. Nos tempos do meu avô, ele dizia a seus secretários e guarda-costas que não falassem de política comigo. Ele tentava me afastar da política. Mas eu vivi uma vida normal, muito próxima dessa atmosfera de adrenalina que se vivia na casa de Trotsky. Era um estado de excitação muito agradável.

CM – Entretanto, você foi testemunha do primeiro atentado e do segundo, o que custou a vida a Trotsky. 

EV – Sim, no primeiro atentado, quando metralharam a casa, eu estava ali. Salvamos-nos todos milagrosamente. Um dos stalinistas esvaziou seu revolver sobre a cama onde eu estava escondido. Mas me encolhi e me salvei.

CM – Que pensa hoje de movimentos como o dos indignados ou o movimento estudantil mexicano YoSoy132? 

EV – É um início, o começo de uma consciência para assumir uma atitude de luta política. Acrescenta muito.

CM – Neste aniversário da chegada de Trotsky ao México, o que você recupera dele como mensagem, como compromisso além de sua obra? 

EV – Eu acho que o principal é o aspecto ético, moral, onde o agir deve estar coordenado com o pensar. O pensamento e a ação devem ser uma coisa só. A verdade deve estar acima de tudo. O exemplo é sua vida. Foi um guia, para mim e para minha família. Para minhas filhas, por exemplo, que não são marxistas nem revolucionárias, elas tem muito inculcado esse principio ético de absoluto respeito à verdade e à justiça.

Tradução: LIbório Junior