Eleições alemãs: o desastre do SPD

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Guilherme Leite Gonçalves

 

            “Por que vocês continuam com ‘os pretos’?” No Brasil, a pergunta teria evidentemente conteúdo racista. Na Alemanha, todavia, ela ressonou por todo o primeiro semestre de 2016 como uma crítica à adesão (já de longa data) do Partido Social-Democrata (SPD) à agenda neoliberal e ao seu regime de austeridade fiscal e monetária. “Pretos”, no vocábulo político alemão, são aqueles que pertencem às fileiras da aliança democrata-cristã (liderada hoje por Angela Merkel), composta pela União Democrata-Cristã (CDU) e por sua correlata da Baviera, a União Social-Cristã (CSU). Trata-se, portanto, da cor que representa historicamente essa legenda. Os comunistas e socialdemocratas sempre foram identificados, por sua vez, como vermelhos.

A pergunta foi formula por uma faxineira do Vale do Ruhr, Susanne Neumann, ao então líder do SPD, Sigmar Gabriel, em um debate aberto na Casa Willy Brandt. Importantes componentes simbólicos da organização tradicional do trabalho e dos trabalhadores alemães estavam presentes. A região (Vale do Ruhr) é o berço da revolução industrial da Alemanha e ainda hoje uma das regiões mais industrializadas do mundo (para a incompreensão dos que ainda acreditam na retórica da sociedade pós-material). Susanne Neumann tinha acabado de se filiar ao SPD. Confinada a mini jobs precários e por tempo determinado, se via na casa que recebe o nome de um dos principais políticos da socialdemocracia do século XX e um dos responsáveis pela edificação do Estado social e seu projeto de pleno emprego. Por fim, Sigmar Gabriel: o chefe do SPD que se encontrava em uma Grande Coalisão com os democrata-cristãos e que, no gabinete de Angela Merkel, participava das reformas trabalhistas e das políticas antissociais.

A língua de Susanne Neumann é o dialeto da região do Ruhr, alemão da classe trabalhadora. Sigmar Gabriel é da Baixa Saxônia. O dialeto é outro, mas há muito ele fala alemão culto. Tentou, no entanto, se expressar com  sotaque e gírias de sua interlocutora. “Por que SPD?”, pergunta Gabriel. “Se o SPD acabar, não teremos mais nada mesmo”, responde Neumann. Em seguida, ela começa a descrever sua situação: sem contrato de trabalho estável, não tem direito à seguridade social, acesso a rede pública de hospital ou a um contrato de aluguel. E pergunta ao secretário geral do partido: “Por que devo votar em um partido que me quebrou e não me dá nenhum satisfação a respeito disso?”. A resposta de Gabriel foi: “sobre o contrato por tempo determinado, não daria para ter feito diferente com ‘os pretos’”. “Mas então por que vocês continuam com ‘os pretos’?”. Silêncio.

A resposta não foi dada por Sigmar Gabriel, mas pelas eleições parlamentares de 24 de setembro de 2017. O pior resultado eleitoral do SPD desde o final da Segunda Guerra. O partido conseguiu alcançar apenas 20,5% dos votos, cerca de 5% a menos do que tinha obtido nas últimas eleições.

Na disputa eleitoral, a estratégia política do SPD foi ambígua. De um lado, o partido encontrava-se pressionado pela crítica da classe trabalhadora à precarização do trabalho e dos serviços públicos. No ano de 2015, o volume somado de dias de greve por empregado atingiu o valor de 2 milhões. No total, 1,1 milhões de trabalhadores entraram em greve. Ao final de 2015, a imprensa alemã se perguntava onde vivia: em Deutschland ou Streikland?

Empurrado pela intensificação das lutas sindicais, o SPD escolheu Martin Schultz para secretário geral do partido e o indicou como candidato a chanceler. O então presidente do Parlamento Europeu foi livreiro e tinha maior identidade com a classe trabalhadora. Suas primeiras manifestações sugeriam o retorno ao legado socialdemocrata com a defesa do Estado social e de garantias ao trabalho. O resultado foi um aumento das intenções de voto naquele período e a esperança de vencer a Democracia-Cristã, de Angela Merkel.

A exemplo de Gabriel, Schultz era aliado de Merkel. Gabriel era seu Ministro da Economia e Tecnologia (hoje das Relações Exteriores). Como presidente do Parlamento Europeu, Schultz esteve ao lado de Merkel em seus pacotes de salvamento da crise econômica europeia. O maior exemplo desses pacotes é o Fundo Europeu de Estabilidade Financeira da União Europeia, cuja aplicação à Grécia por exigências da Alemanha é o caso mais emblemático.

Com esse fundo, em 2015, Merkel consolidou a fórmula que, segundo o sociólogo marxista Elmar Altvater, se tornou caminho para o neoliberalismo crescer por meio de sua própria crise: “os encargos da dívida para uns são os benefícios de fluxos de rendimento e de juros para créditos e títulos de ações nos portfólios para outros”. Com isso, Merkel se transformou no principal ator político do neoliberalismo desde a crise. Com a ajuda de Gabriel e Schultz. Em Grande Coalisão com o SPD!

Conforme descrito, a não-continuidade do SPD com “os pretos” era apenas retórica. Como falar em recuperação do trabalho se, ao mesmo tempo, o SPD é sujeito ativo de sua precarização? O discurso classista de Schultz aparecia como ornamento que encobria fins e interesses políticos diversos dos proclamados. O resultado foi a modificação do tom no transcurso da campanha política. Rapidamente (como sempre), o SPD esqueceu a classe e se jogou no debate sobre os refugiados.

Tal debate foi dirigido pelo Partido Alternativa para a Alemanha (AfD), o movimento político de extrema direita. O país vem experimentando taxas de desigualdade material não vistas desde o pós-45, precarização dos serviços públicos e processos espaciais de gentrificação. Ao mesmo tempo, a classe trabalhadora alemã tem sentido uma redução de sua força social, política e econômica. A extrema direita reenquadou essas tensões sociais a partir de uma chave nacionalista, culturalista e de classificações etnorraciais. As desigualdades produzidas na sociedade por anos de programas (alemães) de austeridade econômica eram reduzidas à questão xenofóbica e chauvinista da construção de barreiras aos refugiados.

Temos duas consequências importantes que foram produzidas pela ação política da AfD. A primeira foi a de pressionar a aliança democrata-cristã ainda mais para a direita. Se, em um primeiro momento, Merkel abriu as fronteiras aos refugiados para dar vazão à demanda por trabalho da indústria alemã, em um segundo momento, atendeu as reivindicações da extrema direita, principalmente do movimento PEGIDA (Europeus Patriotas contra a Islamização do Ocidente), e implementou medidas de integração fortemente racistas, cujo objetivo era a restrição de imigrantes a bens e serviços sociais básicos, bem como a imposição autoritária da língua e cultura alemã.

A segunda consequência da ação política da AfD foi a completa captura da esquerda (SPD e Die Linke) para a sua agenda. No último debate com os candidatos a chanceler, só se discutiu o tema dos refugiados e terrorismo islâmico. Evidentemente que a esquerda se posicionou contra as políticas xenofóbicas da extrema direita. Porém, o fez apenas no plano do culturalismo a partir da defesa da diversidade e diferença. Nada se falou sobre os problemas sociais que afligem a toda e todos: valor do salario mínimo, o nível de pobreza, privatização dos hospitais públicos, a quebra do sistema de seguridade social etc.

Essas duas consequências da ação política da AfD tiveram um resultado avassalador no sistema político alemão. Em primeiro lugar, conduzida pelas diretrizes da AfD, a aliança democrata-cristã amargou uma enorme perda de seu eleitorado, de 41,5% dos votos na eleição anterior para 32,8% na atual. Ainda que permaneça no governo como a força mais votada, Merkel se declarou frustrada com o resultado. Em segundo lugar, é a primeira vez desde 1957 que a extrema direita (um partido à direita dos democrata-cristãos) será representada no Parlamento alemão. Não se trata de uma mera participação. A AfD foi a principal vencedora do pleito e se tornou a terceira maior fração política do país com 94 deputados. Ela não apenas retirou votos dos democrata-cristão e socialdemocratas. O Linke (partido formado por membros do antigo Partido Comunista da Alemanha Oriental, de setores à esquerda do SPD e movimentos trotskystas e obreristas) perdeu 400.000 votos para a AfD.

Após a derrota eleitoral, Martin Schultz declarou o fim da Grande Coalisão com a Democracia-Cristã. O SPD será oposição. O Linke também. Mas até agora aquele que declarou de maneira mais enfática o confronto com Merkel foi a AfD. Sua principal liderança, Alexander Gauland, afirmou: “Nosso partido quer recuperar nossa terra e nosso povo. Para isso, vamos caçar a Sra. Merkel”. Os riscos de um giro ainda mais à direita na Alemanha são muito altos.

O desastre do SPD está associado à sua incapacidade de romper com a agenda neoliberal que aderiu há décadas. O partido se encontra fechado para o resgate do discurso classista, para a retomada da centralidade da categoria trabalho no debate político e para oferecer um programa socialista de combate às desigualdades sociais. Sem esses instrumentos, se torna refém de um discurso identitário contra o xenofobismo fascista, que diz pouco a uma classe trabalhadora (multicultural, mas universal) que vem vivenciando na pele a Lei do Pauperismo Relativo, de Marx.

No que, no entanto, consiste essa incapacidade de ruptura do SPD com o neoliberalismo? Na década de 1990, poderíamos falar em adesão/cooptação do SPD. Depois da implementação da Agenda 2010 (a reforma do sistema social e trabalhista alemão pelo socialdemocrata Gerhard Schröder) e de sua aliança com Merkel pela recuperação do regime de acumulação pós-crise, devemos falar em uma classe de gestores do modelo neoliberal. O SPD participou do início e do fim do Estado de Bem-Estar Social alemão.

O desafio da esquerda alemã é redefinir os termos do debate culturalista/nacionalista imposto pela AfD e demonstrar que a base material da questão social alemã não está no Outro. Deriva, ao contrário, de medidas neoliberais que levaram a cabo a flexibilização das garantias trabalhistas, o corte dos gastos públicos e sociais, a redução de impostos sobre a renda, a desregulamentação financeira, a privatização do público e a estabilidade monetária. O SPD não se mostrou à altura desse desafio histórico. E o Linke?