Cem anos depois: Quem são, hoje, os adversários de 1917?

Por Felipe Demier, publicado originalmente na Revista da Nova Organização Socialista

 

Uma anedota sobre a antiga União Soviética dizia que nos livros de história do país o futuro era certo, e o passado, imprevisível. De Stálin a Gorbachev, a cada cúpula burocrática que ascendia ao poder a historiografia oficial via-se impelida a realizar novas alterações nos tempos pretéritos, mudando não só a interpretação de certos fatos, como inserindo novos personagens e apagando outros. A sarcástica anedota encontra um paralelo científico em certa advertência feita por historiadores marxistas contemporâneos que, argutamente, nos lembraram de que a história feita pelos pesquisadores é sempre a história do tempo presente, isto é, que as análises do passado não são desvinculadas dos projetos societários abraçados por aqueles que as fazem. Tanto a anedota soviética quanto a advertência científica parecem perfeitamente apropriadas aos debates ocorridos quando de importantes efemérides, nos quais historiadores, cientistas sociais, jornalistas e intelectuais se enfrentam tanto no passado, quanto no presente. Argumentos são esgrimidos e atraentes polêmicas são travadas. Ao que tudo indica, este é o caso do presente centenário da Revolução Russa de outubro de 1917.

Quando a Revolução Francesa completou seu bicentenário, em 1989, o historiador britânico Eric Hobsbawn percebeu como as polêmicas que então se davam sobre o tema permitiam dividir seus participantes em dois campos: os defensores e os adversários da Grande Revolução. Naquela ocasião – destacou Hobsbawn –, em função do avanço do neoliberalismo, pareciam predominar no mainstream acadêmico, jornalístico e político os participantes do segundo campo. Atualmente, o mesmo parece já ocorrer com o centenário soviético, quando os adversários hodiernos da Revolução Russa vêm obtendo, claro, mais espaço e público para suas diatribes dirigidas à primeira experiência vitoriosa de uma revolução realizada por trabalhadores e trabalhadoras. Embalados pela Onda Conservadora, os amantes mais ou menos declarados da reacionária ordem atual se esforçam para deslegitimar os feitos de Outubro de 1917, tratando-os, todos, como expressões de um terrorismo despropositado desencadeado por massas manipuladas por dirigentes sanguinários ávidos por edificar e preservar um poder despótico.

Nesse raciocínio, os adversários contemporâneos de Outubro parecem apenas reeditar o esquema analítico dos adversários neoliberais da revolução francesa quando de seu mencionado bicentenário, substituindo apenas os personagens da trama: se o “ignorante” proletariado de São Petersburgo assume o papel dos “raivosos” sans-culottes parisienses, o “criminoso” partido bolchevique toma o lugar do “terrorista” clube jacobino e, óbvio, os tiranos Lênin, Trotsky, Sverdlov e demais artífices da tomada do Palácio de Inverno substituem os “irascíveis” Robespierre, Danton, Marrat e cia. Segundo seus atuais detratores, a Revolução Russa não teria sido senão a consumação de um projeto totalitário, gestado, pelo menos, desde 1903 pelos bolcheviques, ao passo que Lenin não passaria de um antecessor – e mesmo um preparador político – de Stálin na sucessão de um regime despótico iniciado com a queda do Governo Provisório de Kerensky.

O que vertebra, portanto, a argumentação dos atuais adversários de Outubro é a tese de que o estalinismo seria uma simples continuidade linear do leninismo, cuja essência seria um projeto político de corte totalitário que acabou por se estabelecer em face de massas populares atrasadas, analfabetas e impotentes. Durante um bom tempo, no espírito da “guerra fria”, a historiografia e ciência política liberais, em especial as de influência norte-americanas, trabalhavam com a noção de um “povo russo” (incluindo aí as outras nacionalidades não russas que integravam a extinta União Soviética) subjugado por uma ditadura totalitária implantada por Lênin e Trotsky, e simplesmente continuada por Stalin e seus sucessores. De uns anos pra cá, antenados com a perspectiva revisionista que impregna boa parte das pesquisas históricas – e que já havia se apresentado com força quando do bicentenário da Revolução Francesa, como notou Hobsbawn –, uma certa corrente historiográfica, também de matiz liberal, passou a afirmar que o próprio “povo russo” nutriria secularmente uma concepção autoritária acerca das relações sociais e políticas (uma “cultura política autoritária”), e, nesse sentido, teria tido na ditadura inaugurada em 1917 uma expressão estatal compatível com sua subjetividade e anseios políticos. Para tal corrente interpretativa de Outubro, não só Stalin teria sido um legítimo sucessor e continuador de Lênin, como este último, por sua vez, teria – após um breve interregno entre fevereiro e outubro de 1917 – sucedido a dinastia dos Romanov enquanto representante político de uma “sociedade autoritária”.

Destaquemos aqui, brevemente, dois aspectos que estruturam as narrativas produzidas por este grande campo liberal dos intérpretes de Outubro, isto é, destes adversários, no passado e no presente, da Revolução Russa.

O primeiro deles é que não é difícil notar em suas perspectivas analíticas o culto à democracia liberal como a forma plena e perfeita de organização política da espécie humana, o que leva a uma virulenta condenação dos bolcheviques, e mesmo do “povo russo”, no caso dos revisionistas, por terem dela se afastado. A essa dimensão idealista, soma-se um indisfarçável anacronismo. Não só a democracia representativa – com todos os seus inexpugnáveis ingredientes repressivos contra o movimento operário, não custa lembrar – só existia, quando da Revolução de Outubro, em algumas poucas nações originárias do capitalismo industrial (com destaque para Inglaterra, França e Estados Unidos), como o desenvolvimento desigual e combinado da industrialização na atrasada formação histórico-social russa não permitia que um regime democrático-liberal aparecesse como uma opção exequível no cardápio político do país. Esta impossibilidade democrático-liberal, por assim dizer, ficou evidente em todo o comportamento da burguesia russa ao longo das duas primeiras décadas do século XX.   Sem jamais ter desafiado seriamente o absolutismo czarista empunhando um programa democrático, nem mesmo tendo buscado qualquer tipo de aproximação com as ingentes massas camponesas ou mesmo com a numericamente reduzida, porém socialmente concentrada, classe operária do país, a burguesia liberal russa foi conduzida ao poder em fevereiro de 1917 por meio de uma revolução popular na qual ela não tomou parte. De porte do leme do Estado, não ousou, até ser deposta por uma insurreição operária meses depois, tomar nenhuma só medida de cunho democrático. O Governo Provisório não foi capaz de alterar em um milímetro a nobiliárquica estrutura agrária do país, não atendeu às reivindicações por direitos sociais dos trabalhadores fabris, não garantiu nenhum direito às nacionalidades oprimidas pelo império czarista, protelou ao máximo as eleições para uma assembleia constituinte e, por fim, não ousou retirar o país de uma guerra a qual, interessante apenas para as burguesias imperialistas do Ocidente, lhe custava milhões de vidas camponesas no front, acirrava a fome no campo e intensificava a carestia nas cidades. Não satisfeita em nada fazer para edificar um regime democrático-liberal, tal como preconizado pelos mencheviques (e mesmo pelos “velhos bolcheviques” – como Zinoviev, Kamenev e Stalin – até a chegada de Lênin em abril), a burguesia russa conspirou incessantemente para derrubar a possibilidade de sua construção. O apoio da maioria da burguesia russa e seus partidos ao levante de Kornilov deixou evidente que a classe dominante do país buscava não só derrubar o seu próprio Governo Provisório (por demais “democrático” e permeável à presença de lideranças advindas de partidos ligados aos trabalhadores), como desejava substituí-lo por uma ditadura militar restauracionista.

Desse modo, não seria equivocado dizer que os liberais historiadores de hoje são os únicos que, retrospectivamente, desejam verdadeiramente que houvesse tido uma democracia liberal na Rússia de 1917, ao passo que os liberais de ontem, mais realistas, sabiam muito bem que só uma cruenta ditadura poderia lhes salvar a pele e a propriedade. O desejo dos historiadores liberais de hoje por um regime democrático-liberal na Rússia de cem anos atrás diz mais sobre o seu apego a nossa insípida democracia representativa do século XXI, cada vez mais blindada às aspirações populares, do que propriamente sobre a possibilidade real de sua implantação na sociedade russa do início do século XX. Tomando a revolução como um terrível e lamentável acidente dentro de um inelutável curso “democrático-liberal” dos povos, os analistas liberais do passado não intentam mais do que fechar as portas da história a ela no futuro. Seus verbos estão no pretérito, mas suas armas, no presente.

O segundo aspecto a ser destacado referente a estas tendências historiográficas hostis a Outubro é sua junção proposital entre dois momentos, duas fases distintas do processo aberto com a tomada do poder pelos bolcheviques, o que se verifica na já mencionada concepção liberal de que o stalinismo não teria sido senão uma evolução natural do leninismo. Muitos argumentos poderiam ser utilizados para refurtar tal assertiva, e desde há muito tempo as pesquisas históricas disponibilizam dados à porfia que evidenciam profundas diferenças, em vários níveis da vida social e política, entre os períodos anterior e posterior a 1928, quando já se pode falar em uma consolidação do estalinismo na União Soviética. O aumento significativo da diferença salarial, a reaparição da prostituição, o desrespeito à autonomia das nacionalidades não russas, o crescimento exponencial de uma casta burocrática privilegiada e a proibição a qualquer tipo de divergência política no interior do partido bolchevique são alguns dos muitos elementos que, já nos anos 1930, expressavam as profundas mudanças ocorridas no tecido social soviético em função das opções políticas e econômicas da camarilha estalinista que se assenhoreou do poder após a morte de Lênin, em 1924. No entanto, para refutar a tese liberal em tela bastaria assinalar o fato de que, sob ordens de Stalin, milhares de revolucionários do período 1917-1924, entre eles praticamente todos os componentes do comitê central presidido por Lênin quando da Revolução de Outubro, foram presos, enviados a campos de trabalho forçado e fuzilados. Na sede da tenebrosa Lubianka, muitos dos íntimos colaboradores de Lênin foram barbaramente torturados para, com suas famílias feitas reféns, confessar crimes inexistentes e depois assassinados impudentemente. Assim, falta aos adeptos da tese da continuidade Lênin-Stalin explicar por que o último, um “mero continuador”, teve que eliminar fisicamente praticamente todos os aliados do primeiro, “seu mestre”.

Buscando contornar essa incontornável objeção, muitos dos intérpretes liberais de Outubro se refugiam na afirmação de que, sob o comando de Lênin e Trotsky, o aparelho repressivo também vitimou milhares de pessoas. Tratando abstratamente a violência, esses intérpretes perdem de vista o conteúdo histórico social da repressão da qual lançou mão o jovem regime revolucionário, imerso em uma guerra civil resultante da ofensiva militar desencadeada pelos adeptos da velha ordem aliados a exércitos de mais de uma dezena de nações capitalistas que invadiram o país. Salvo condenáveis exceções (como o crasso erro em Kronstad), foi contra estas forças militares contrarrevolucionárias que os bolcheviques de Lenin e Trotsky dirigiram suas armas, e não contra os próprios revolucionários, como faria posteriormente Stalin. Tentar igualar historicamente ambas as repressões por serem ambas repressivas é tão despropositado como querer igualar – para lembrarmos mais uma vez o caso francês – Robespierre tanto aos girondinos do Diretório, quanto a Luís XVI e sua entourage absolutista, pelo simples fato de que todos eles deceparam a cabeça de seus inimigos. Convém lembrar, ainda, que, diferentemente do incorruptível chefe jacobino, Lênin e Trotsky não executaram nenhum só dos seus Dantons.

Por fim, ao igualar Lênin a Stalin, o que fazem os intérpretes liberais de Outubro é, simplesmente, igualar a revolução à contrarrevolução. Nesse ponto, aliás, convergem inteiramente com os decrépitos estalinistas do presente. Tanto uns quanto outros maculam a revolução em sua história, fazendo-a assumir os crimes dos seus corrosivos inimigos internos do passado. Com isso, sejam eles críticos ou apologetas do Outubro centenário, não passam, no presente, de irreconciliáveis inimigos daqueles que não suportam esperar mais cem anos para outra revolução socialista.