A LUTA DO POVO NEGRO NO BRASIL

Life expectancy at work the sugarcane is only 12 years. Similar to slaves.

Por Douglas Lopes, estudante de história na UFRGS, militante do Alicerce e da Nova Organização Socialista.

                                                                                                                                                                            O Brasil tem em sua história um dos maiores e mais nefastos crimes da humanidade, a escravidão. Diferente do trabalho escravo nas antigas sociedades, onde guerreiros derrotados eram forçados a trabalhar para seu conquistador, no Brasil a imposição ideológica racista se baseou na desumanização e no processo de objetificação dos negros e negras, transformados em meros meios de produção. Ficaram cicatrizes profundas não somente da psique dos escravizados, mas em toda a formação socioeconômica decorrente.

Foram 300 anos de regime escravocrata, e mais de 5 milhões de africanos sequestrados e trazidos para o Brasil. Enquanto povo, fomos submetidos à torturas físicas e psicológicas, impedidos de vivenciar vínculos familiais e amorosos, além das condições de trabalho extremamente degradantes. A elite escravocrata portuguesa enriqueceu não só pelo tráfico negreiro, mas sobretudo pela exploração da força de trabalho de africanos e negros brasileiros nas fazendas e engenhos.

Foi negada nossa humanidade, foram negados nossos direitos mais básicos de sobrevivência.

Nosso povo resistiu ao longo desses quase 4 séculos. A fuga das fazendas, a sabotagem na produção, a destruição de engenhos e plantações, o assassinato de senhores e, o exemplo mais marcante, a construção de quilombos em áreas isoladas, onde um novo tipo de sociedade se iniciava, baseada nos interesses do bem comum, no compartilhamento de tudo aquilo produzido e na aceitação de todos os povos excluídos e oprimidos (Índios e inclusive brancos).

Num contexto de mais de 70% de população negra liberta, em 13 de maio de 1888 a Princesa Isabel assina a Lei Áurea, que garantia a liberdade jurídica aos escravizados e colocava o Brasil como o último país nas Américas a abolir a escravidão. O significado desse processo nas palavras do poeta Oliveira Silveira foi; “13 de maio traição, liberdade sem asas, fome sem pão.”

A abolição foi esperada como uma verdadeira libertação, o Brasil reconheceria o crime cometido aos povos africanos e estes receberiam suas devidas indenizações e apoio do Estado para que suas vidas pudessem recomeçar de verdade, nos braços da liberdade. NOSSA PRIMEIRA ILUSÃO.

A abolição veio com outro objetivo, satisfazer os interesses das elites latifundiárias, indenizar os senhores de escravos e isentá-los de qualquer responsabilidade com os trabalhadores negros.

Mas o que fazer com um país onde a grande massa de trabalhadores e trabalhadoras “livres” era composta de ex-escravizados, que por sua herança histórica, encontravam-se extremamente excluídos do meio social, sem acesso a nenhum tipo de cidadania? A resposta do Estado, juntamente com os latifundiários, veio com a importação da mão de obra empobrecida europeia, tendo como objetivos principais; o projeto ideológico de ”Embranquecer” a nação e; Criar um excedente de mão de obra negra, um verdadeiro exército de trabalhadores muito precarizados.

A integração do negro na sociedade pós abolição não se deu através da cidadania e do reconhecimento de sujeitos de direitos, se deu através da criminalização e da manutenção das tarefas e postos de trabalho mais precarizados. As mulheres negras continuaram no trabalho doméstico, cuidando da casa e dos filhos dos seus senhores brancos. O homem negro, quando não encontrava um ofício, como sapateiro, artesão e até mesmo voltando para o trabalho no campo, ficou à deriva nas grandes cidades, sendo taxado de “vadio”, “vagabundo”.

Com o avanço da urbanização, nosso povo, que antes habitava os centros das cidades, começa a sofrer um processo de segregação espacial que os expulsa das áreas centrais e os coloca nas periferias e morros que cercam os centros urbanos, nos afastando ainda mais das oportunidades e condições dignas de sobrevivência.

Ao longo do século XX, surgem as primeiras organizações e clubes negros, onde nosso povo tenta em um primeiro episódio superar a herança maldita da escravidão. A Frente Negra Brasileira é a expressão política desse período. Pontos como alfabetização e a cultura são centrais nas políticas desse movimento, que foi logo interrompido na ditadura Vargas e não conseguirá criar uma verdadeira expressão de força politica até os anos 70, em meio a ditadura civil militar, quando ressurge como Movimento Negro Unificado, que tem como característica a luta e defesa das reivindicações do povo negro na sociedade brasileira e que se faz presente também nas lutas pela redemocratização do país. Mais tarde irá incorporar as fileiras do Partido dos Trabalhadores.

Com a chegada do PT ao governo vem junto a esperança de, finalmente, superar a herança escravocrata. A segunda abolição seria a partir de reformas estruturais como a Reforma Agrária, Reforma Urbana, Reforma Midiática, Industrialização e investimento nas áreas sociais. NOSSA SEGUNDA ILUSÃO.

Nos treze anos de governo petista, algumas concessões foram feitas que garantiram algum tipo de resposta às nossas reivindicações, mas que, na verdade, “nos davam com uma mão e nos retiravam duas vezes mais com a outra” Os empregos criados eram tercerizados, com alta rotatividade (+- 1 ano), e com média de um salário mínimo e meio. Nosso acesso à educação básica e superior se deu a partir de bolsas e cotas, tendo como principal objetivo, não a garantia de direitos universais ou reparação histórica, mas sim especializar a mão de obra negra para o mercado cada vez mais informal e flexível. Escolas e universidades não receberam investimento e não mudaram sua estrutura para integrar esses novos sujeitos. Nossa juventude ainda vive à mercê do trabalho informal e do tráfico de drogas, segue morrendo na lógica do genocídio que nosso povo sofre a 500 anos, agora sob a máscara de “guerra às drogas” para garantir a paz e a salvação da nação. Nosso país tem a 4º maior população carceraria do mundo, aumento de mais de 200% nos últimos 10 anos, são mais de 700 mil presos, sendo 60% pessoas negras.
NOSSA LIBERTAÇÃO FOI MAIS UM VEZ SURRUPIADA PELAS ELITES.

Junho de 2013 nos abriu um novo momento na história do Brasil. Manifestações com milhares de pessoas que duraram o mês inteiro e se espalharam por todos os territórios do país. Juventude e trabalhadores, negros e negras, que sofrem a 500 anos com as cicatrizes da escravidão foram às ruas massivamente para exigirem seus DIREITOS JÁ! Colocaram em pauta todos os problemas que se acumularam nesses 500 anos, abalando e causando medo nas grandes elites brasileiras. Junho nos deixou lições de auto organização, de solidariedade e coletividade. Mostrou que quando o povo negro vai pras ruas, pega pra si a tarefa de mudar sua realidade, abalam-se as mais profundas estruturas da sociedade capitalista.

Em tempos de uma crise profunda que vivemos, onde os ricos e poderosos desse país declaram guerra contra nós, retirando nossos direitos com um projeto que quer nos recolocar no século XIX, o povo negro tem um papel fundamental na Revolução Brasileira, na verdadeira abolição, na busca pela emancipação de todos os povos oprimidos do mundo. A SUJEITA(o) REVOLUCIONÁRIA(o) BRASILEIRA TEM A PELE PRETA, E SOMENTE ORGANIZADA NOS SEUS BAIRROS, ESCOLAS E TRABALHOS, LEVARA TODA A SOCIEDADE PARA A VERDADEIRA LIBERTAÇÃO.