Nenhuma a menos: por uma greve internacional de mulheres em 2018

O manifesto a seguir é uma convocação lançada pelo movimento feminista Ni una menos, da Argentina, para a construção de uma nova greve internacional de mulheres no 8 de março de 2018. Nós mulheres militantes da Nova Organização Socialista, nos solidarizando com a construção dessa iniciativa, reproduzimos e endossamos o manifesto das companheiras argentinas:

                                                                                                                                                                              As mulheres do mundo estão em um processo de revolução existencial. Em 8 de março de 2017, nós nos unimos em uma demonstração de força: realizamos a primeira greve internacional de mulheres, uma ação conjunta transnacional, multilíngue, interseccional e heterogênea em que 55 países participaram. Nós começamos a tecer um novo internacionalismo. Nós nos constituímos como sujeitos revolucionários inesperados em nível global e desafiamos todas as formas de exploração, racismo e crueldade a partir de um ponto de vista de uma ética feminista, baseada em uma política de vida e não de sacrifício. Para nós, todos os corpos e existências contam. Nós estamos colocando em prática, no aqui e no agora, o mundo em que queremos viver.

Dizemos Nenhuma a menos como um lema transversal que une a música de revoluções anteriores com a tenacidade das lutas feministas. Nós colocamos um novo poder em circulação que é disseminado como um vírus e que brota no centro de organizações políticas e sociais abrindo espaços de democratização e desmantelando discursos de impotência; esse poder rompe o espaço doméstico como confinamento; transforma discussões sindicais; ativa resistência na esfera produtiva e em economias populares; radicaliza lutas contra o extrativismo e desapropriação; perturba as indústrias do espetáculo; permeia as linguagens artísticas; retorce linguagens sedimentadas, forçando-as a nomear novas identidades e existências; desafia o controle financeiro sobre nossa vida diária. Explode em praças e quartos. Nada está separado da revolução feminista, a maré avança e recua, encontra canais subterrâneos e emerge como um tremor que ganha nova força.

Entramos em greve porque a maré nos empurra e porque nossas rebeliões a alimentam. Nós paramos e paramos o mundo para desnaturalizar a violência e todas as formas de exploração. Entramos em greve contra a crueldade que toma nossos corpos como espólios de conquista. Entramos em greve em defesa de nossas vidas e de nossa autonomia. Entramos em greve para inventar o nosso próprio tempo, em que nosso desejo designa uma outra forma de viver na Terra.

Nossa greve não é apenas um evento, ela é um processo de transformação social e acumulação histórica de forças desobedientes que não podem ser contidas pelas regras da democracia formal. Nosso movimento transborda o que já existe, atravessa fronteiras, línguas, identidades e escalas para construir novas geografias que não são aquelas do capital e seus movimentos financeiros.

Em oposição à divisão sexual e racista de trabalho; em oposição ao domínio das finanças sobre nossas vidas; em oposição à apropriação neoliberal de nossas demandas; em oposição à lavagem rosa [pinkwashing] de corporações transnacionais; em oposição às práticas e ao imaginário machistas da mídia; em oposição ao punitivismo (punir por punir) que alega disciplinar e moralizar em nosso nome; em oposição à repressão, à criminalização e à demonização de nossas lutas: nós entramos em greve!

A greve é uma ferramenta que estamos reinventando de modo a desarmar a rede de violência contra nós. A greve permite mapear novas formas de colonialismo e imperialismo que são exercidas contra nossas economias e nossos territórios. A greve nos chama a investigar e a ativar resistência e desobediência, à produção de formas alternativas de vida e de corpos rebeldes. Chamamos a todas, mulheres, lésbicas, mulheres trans e corpos feminizados do mundo, a propagar o vírus da rebeldia. Nós chamamos por uma demonstração de força e por um grito comum em 8 de março de 2018. Entraremos em greve!

Nenhuma a menos, vivas nos queremos!

Manifesto originalmente publicado no Blog Junho.                                                                      Tradução de Camila Ribeiro