UM ESTADO QUE MATA JOVENS NÃO PODE OFERECER UMA BOA EDUCAÇÃO

Joécio Dias, professor da rede estadual de educação no Ceará e militante da NOS 

O ano letivo nem começou ainda e já estamos com muitos problemas. Uma breve lida nos jornais traz à tona uma realidade que há tempos não se vivenciava nas escolas públicas brasileiras: a falta de vagas para matrículas! Isso não se restringe a uma rede, municipal ou estadual, é sistêmico e geral. Conhecidos meus, por saberem que sou professor de ensino público, me procuraram para “garantir uma vaga”, como se isso estivesse nas minhas mãos. As coisas funcionam assim nos tempos de exceção! Mas, parafraseando Belchior, eu sou apenas mais um professor nordestino de escola pública sem dinheiro no banco (só tem o que resta do salário). E assim chego ao ponto crucial: ser professor!

Penso que não precisa ser professor, nem acadêmico (muitas vezes que não vivenciam nem uns poucos porcentos de suas pesquisas), para saber que isso é uma crise estrutural, ou seja, está tudo interligado. O que na realidade temos é uma máquina de matar, o Estado, e quem morre tem endereço, cor, sexo e gênero. Isso mesmo (é assustador escrever isso), nossos alunos, filhos da classe trabalhadora, são essa ponta, são os que estão a mercê de toda angustiante escrotidão desse sistema. Nossos jovens estão morrendo, ou pela mão do Estado ou pelo crime organizado (mais organizado que o próprio Estado).

Não é incomum encontrarmos relatos de companheiros e colegas professores sobre “perdemos mais um”. Não é incomum, mas nem por isso devemos naturalizar essa violência com um “mais um”. Só eu, ano passado, tive cinco alunos mortos, ou pela violência urbana ou por outra causa, também ignorada pelas políticas e opinião públicas, o suicídio. É muito doloroso escrever isso e, não conto quantas manhãs acordei e pensei “não vou pra escola hoje” e não fui mesmo. Chega uma hora que a gente desaba mesmo! E seria leviano de minha parte tratar essa questão como se fosse só do lado de lá (aluno), também relato casos de professores que se sentem extremamente acuados, adoecidos e deprimidos. Houve até professores assassinados no ano passado. Uma realidade horrível, mas que não deve ser jamais mascarada, muito menos naturalizada por nós, uma pequena (porém crucial) parte desse engodo todo. Afinal, somos ou não somos responsáveis pela construção de um mundo melhor, o que pra mim significa um mundo mais digno e igualitário?

Do outro lado da ponta, temos o Estado que deveria garantir o mínimo de condições para que essa roda-viva gire. Mas o que vemos é um completo descaso, quando não uma irresponsabilidade. Uma máquina composta por um setor tacanha, sempre pelo “ter” em detrimento do “ser”. O governo de Camilo Santana (PT) é o exemplo mais mesquinho: vende nossas vidas, ilude com projetos progressistas e se utiliza da violência para sustentar seu lugar de poder, não é à toa que o seu carro-chefe é a segurança pública com o “aprimoramento” do aparato militar, que de garantir segurança não tem nada, só serve pra repressão. Juntamente com os projetos falaciosos de educação, financiados pelo Banco Mundial, servirão de propaganda para o pleito eleitoral que se anuncia.

Há ainda um outro agravante que é o crescimento da retirada de liberdades individuais, como as questões de raça, gênero e sexualidade. É absurdo que palavras como “gênero” e “sexualidade” não possam ser mais escritas em projetos escolares. Vivemos num estado violento com mulheres, gays, lésbicas, transsexuais e negros. O combate a essa violência começa aqui, no chão da escola, e precisamos mobilizar a sociedade para essa discussão. O racismo, o machismo e a lgbtfobia são institucionais e não devem ser apenas “propaganda” de governo, como faz a atual Secretaria de Educação do Estado do Ceará, essa mesma que brada sobre o tema, é obediente e conivente (não quer perder votos) com as ideias de um setor parlamentar fundamentalista e conservador, liderado por figuras carismáticas como a deputada Silvana Oliveira (PMDB) e o deputado Eli Aguiar (PSDC). Uma pastora casada com um empresário envolvido em desvios de dinheiro na compra de ambulâncias e o outro um aventureiro apresentador de programas policialescos que tem como objetivo principal vender o medo e o ódio de classe para a população já tão abalado pelo seu cotidiano “de medo”.

Percebemos que as políticas públicas do governo de Camilo Santana (PT) não estão fazendo outra coisa, senão obedecer às ordens federais. No país que sofreu o golpe de 2016 e que se concretizou em 2017 com a condenação (não nos interessa a relação culpado/inocente aqui) do ex-presidente por uma justiça seletiva (sim, porque não é contra a corrupção, mas contra a corrupção de quem), caminhamos para um regime fechado, com menos democracia, menos participação política de sua maioria (leia-se minorias). Toda e qualquer ação deve ser pautada pela denúncia dessas políticas, elaboradas e imposta por uma elite rica, escravocrata, racista e patriarcal.

Nós, sociedade civil, classe trabalhadora e precarizada somos os grandes responsáveis por mudar tudo isso. O que nos falta é organização, democratização de ideias, elaboração das nossas políticas. Não é fácil e não estamos sós e o caminho e meios não são únicos, mas comecemos pela denúncia das barbáries cometidas pela discriminação institucional, pela luta contra toda tentativa de redução de direitos (reformas do governo). Juntemos nossas dores e tracemos nossa luta.

Nossa vitória não será por acidente! É hora de nos organizarmos!

Fortaleza, 27 de janeiro de 2018 – o dia em que ocorreu a maior chacina do Ceará.