Marielle tem o mundo a ganhar

Felipe Demier, professor de História e militante da NOS Rio de Janeiro

                                                                                                                                                        Para realizar o Golpe e, por meio deste, implementar sua agenda de lancinantes ataques aos direitos dos trabalhadores, o capital, por meio de seu partido midiático, colocou em movimento toda a fauna e flora reacionária da sociedade brasileira. Depois de conjurar todos os demônios, a imprensa golpista tenta agora afastá-los, trancafiá-los em garrafas novamente, pois, como lembrou há décadas o velho Bronstein, a burguesia não gosta da maneira convulsiva e plebeia que o fascismo tem de resolver as coisas.

Agora, Pedro Bial fala sobre diversidade diariamente em seus programas, o Bonner debocha aristocraticamente do Bolsonaro, Cristiane Lobo se desvencilha naturalmente de Temer, Sardenberg ridiculariza Pezão e Mariana Gross ironiza Crivella, enquanto o Merval Pereira, por sua vez, clama por uma “união da esquerda e direita em defesa da democracia e da intervenção para combater o crime organizado”.

Depois que instilaram diariamente o ódio a tudo que cheirasse, mesmo que de longe, a povo e a esquerda (incluindo uma mulher presidente ex-guerrilheira e um ex-presidente metalúrgico nordestino, passando por um Amarildo negro e favelado, professores de humanas e gente que simplesmente decidiu beijar gente do mesmo sexo – sim, muita gente no povo beija gente do mesmo sexo), agora vocês, finórios pacificadores dos jornais notívagos, dizem que queriam que os cães famintos e atiçados por vós tivessem voltado ao canil sem ter devorado as presas às quais só deveriam ter ameaçado.

Agora, depois que a luz se apagou, os liberais à brasileira querem dispensar o fascismo e se tornar, de fato, liberais, esclarecidos, ponderados. Agora, depois de clamar por trevas, eles querem luz. Agora, que o demos foi calado, os “democratas” querem democracia. Agora, que a festa acabou, eles querem festa, José. Agora, que a paz acabou, eles querem paz. Agora, porém, é tarde.

Agora, Marielle está morta. Agora, Marielle não tem mais nada a perder, a não ser os grilhões de suas irmãs e irmãos trabalhadores que aqui ficaram. Agora, Marielle tem o mundo a ganhar. E ela o vai ganhar. Nós o ganharemos, para nós, e para ela. Com ou sem sangue. Agora tanto faz.

*Publicado originalmente no perfil pessoal do autor no Facebook.