As lições da Virgínia Ocidental

Eric Blanc, doutorando em sociologia e militante socialista

*Nota introdutória: entre o final de fevereiro e o início de março de 2018, os trabalhadores da educação da rede pública de ensino do estado da Virgínia Ocidental, nos EUA, realizaram uma fortíssima greve, que conseguiu derrotar o governo estadual Republicano e obter significativas conquistas, incluindo um aumento salarial de 5%. Na esteira desse movimento, trabalhadores da educação de outros estados, como Oklahoma, também passaram a se mobilizar, abrindo um cenário de importantes lutas naqueles país. Esse artigo escrito por Eric Blanc apresenta uma avaliação política da greve da Virgínia Ocidental e seu papel numa possível reconstrução de um movimento sindical socialista.

Originalmente publicado em 09/03/2018, no site: Jacobin Magazine

A histórica greve selvagem da Virgínia Ocidental tem o potencial para mudar tudo.

A grande greve selvagem [constituída por fora da estrutura sindical] da Virgínia Ocidentqal é a mais importante vitória dos trabalhadores nos Estados Unidos desde, pelo menos, o início da década de 1970. Embora a greve da UPS de 1997 e a greve dos professores de Chicago em 2012 também tenham capturado a atenção do país, há algo diferente no caso da Virgínia Ocidental. Essa greve teve abrangência estadual, foi ilegal, foi selvagem e parece estar se espalhando.

O levante da Virgínia Ocidental guarda muitas semelhanças em relação à mobilização de base do final dos anos 1960 e início dos 1970. Mas há algumas diferenças cruciais. Enquanto as lutas dos trabalhadores de quatro décadas atrás surgiram no contexto de um boom econômico do pós-guerra e do inspirador sucesso do Movimento pelos Direitos Civis, a agitação atual emergiu em um período de derrotas virtualmente ininterruptas da classe trabalhadora e austeridade econômica. A iminente decisão da Suprema Corte de retirar de todo o setor público a obrigatoriedade de sindicalização para contratação confere à greve da Virgínia Ocidental um grau adicional de importância.

Ainda é muito cedo para dizer se a Virgínia Ocidental será a fagulha na origem de uma retomada de um movimento dos trabalhadores de caráter combativo em escala nacional. Em grande parte, isso vai depender do quanto os trabalhadores aqui conseguirão manter as vitórias nos próximos meses – e também da efetiva materialização de uma provável onda de greves na educação pública nos estados de Oklahoma, Nova Jérsei, Arizona e Kentucky, entre outros.

Compreender as razões que levaram os trabalhadores à vitória nessa greve será crucial para os ativistas engajados nessas próximas batalhas – e para todos os interessados em reanimar o movimento dos trabalhadores nos Estados Unidos. Ao mesmo tempo, é importante identificar os desafios que se colocam no caminho da luta na Virgínia Ocidental.

Poder de classe

No que se refere a uma estratégia de sucesso para a classe trabalhadora, não há necessidade de reinventar a roda. A Virgínia Ocidental mostrou, mais uma vez, a contínua relevância de simples percepções políticas que foram abandonadas há muito tempo pela maioria das lideranças sindicais, mas também por grande parte da esquerda.

A luta de classes é a chave do segredo

A “cooperação” entre trabalhadores e empregadores conduziu a sucessivas concessões ao longo das últimas décadas. A atual forma do que se apresenta como um “sindicalismo da justiça social” tampouco foi capaz de reverter o declínio da organização dos trabalhadores. Ao invés de construir o poder a partir do local de trabalho e das greves, muitos sindicatos progressistas focaram suas energias em campanhas de relações públicas, apelos morais aos consumidores e reivindicações dirigidas a políticas do Partido Democrata.

Em contraste, a militância a partir da base e a ação grevista dos professores e funcionários de escolas da Virgínia Ocidenal revigorou a organização da classe trabalhadora e obteve uma série de vitórias importantes, dentre as quais o aumento salarial de 5% para todos os funcionários públicos não é a menor.

Desde o primeiro dia, a participação ativa da base – e a sua notável habilidade nas conjunturas críticas para superar a inércia ou os compromissos das lideranças sindicais – foi o motor responsável pelo avanço da greve. Através da dinâmica empoderadora da luta de massas, muitos indivíduos que eram politicamente inexperientes e desorganizados há duas semanas se tornaram líderes respeitados junto aos seus colegas de trabalho.

Vencer disputas trabalhistas frequentemente requer atropelar a lei

Ainda que a greve seja ilegal para os funcionários públicos da Virgínia Ocidental, eles a fizeram ainda assim. Enfatizando a longa tradição de agir ilegalmente para defender uma causa justa, muitos grevistas fizeram cartazes caseiros que diziam “Rosa Parks não estava errada”. O estado inicialmente ameaçou abrir processos para terminar a greve, mas teve que recuar. Nos momentos de luta de massas, em outras palavras, a legalidade se torna uma questão de relação de forças. Se uma greve tem a força, o impulso e o amplo suporte do público, é difícil para a elite dominante desmontá-la.

A disposição para superar a lei será particularmente crucial no próximo período. Os limites da estrutura legal e institucional das relações de trabalho nos EUA já levaram o movimento sindical à falência. Esse cenário será reforçado se, conforme esperado, a Suprema Corte eliminar alguns direitos trabalhistas cruciais do setor público. Mas, o que a experiência da Virgínia Ocidental mostra, é que é possível lutar e vencer em face dos mais draconianos obstáculos legais.

Os locais de trabalho permanecem sendo nosso mais poderoso ponto de resistência contra a elite dominante

O fato de o sistema depender do nosso trabalho nos dá uma imensa vantagem estrutural. Como demonstraram os eventos dos últimos dias, isso é verdadeiro para os empregados do setor público – incluindo categorias que são predominantemente femininas, como a dos professores –, tanto quanto para os do setor privado. De forma muito apropriada, uma das palavras de ordem dos últimos dias em frente ao parlamento foi: “Se eles não consertarem a situação, devemos fechar essa casa!”

Liberar e sustentar esse poder em potencial depende, em grande medida, das iniciativas independentes de uma “minoria militante” de lideranças de base.

É pouco provável que a greve da Virgínia Ocidental tivesse acontecido – ou sido bem-sucedida – sem os incansáveis esforços de um pequeno grupo de professores radicais profundamente enraizados. Muitos desses líderes de base iniciaram sua militância na campanha presidencial de Bernie Sanders, em 2016. Outros, particularmente no sul do estado, como no condado de Mingo, já haviam se politizado no bojo de uma tradição multigeracional de militância que tem sua origem nas Guerras das Minas do início do século XX.

Reconstruir uma camada análoga de militantes através do país é essencial. Desde a expulsão dos radicais dos sindicatos pelo Macartismo dos anos 1950, os movimentos dos trabalhadores e socialista estiveram enfraquecidos pela imposição desse divórcio. Nas últimas décadas, os militantes de esquerda estiveram surpreendentemente desinteressados em tentar reestabalecer suas raízes nos locais de trabalho e nas organizações da classe trabalhadora. Tenho esperança de que o exemplo inspirador da Virgínia Ocidental encorajará uma nova ênfase estratégica na luta de classes a partir dos espaços produtivos.

Buscar a fusão do socialismo com o movimento trabalhista demandará, necessariamente, abandonar a bagagem ideológica e os maus hábitos políticos acumulados ao longo de décadas de marginalização.

O ethos dos grevistas da Virgínia Ocidental foi o exato oposto do sectarismo estéril, da insularidade política e da autoproclamação que prevalecem entre grande parte da esquerda. Os radicais têm muito o que aprender com o modelo de unidade na ação da Virgínia Ocidental. Conforme foi resumido pela ativista sindical e professora do ensino médio, Emily Comer: “Para um movimento de massas ter sucesso, as pessoas não precisam concordar em termos de política partidária, ou religião, ou qualquer outra coisa. Mas elas precisam se unir e lutar solidariamente em torno de uma questão compartilhada”.

Foco nas grandes e urgentes demandas que enfrentam as pessoas que trabalham.

Nesse caso, a luta se desenrolou em torno de questões materiais – pagamento e seguro-saúde – que impactam diretamente as condições de vida de milhares de pessoas do estado. O crescente impulso para a ação grevista através do país demonstra que a urgência dessas demanas não é limita a Appalachia.

Desafios à frente

A terça-feira foi um dia de euforia para os grevistas em toda a Virgínia Ocidental. A comemoração foi merecida e veio em boa hora – muitos professores já se aproximavam da exaustão física.

Infelizmente, não haverá muito tempo para descansar. A elite governante da Virgínia Ocidental sofreu um duro golpe, mas está longe de ser derrotada. Ao longo dos próximos dias e semanas, eles vão concentrar os seus esforços para minimizar os importantes ganhos da terça-feira. Isso vai assumir a forma, acima de tudo, de uma ofenisva organizada para jogar os servidores públicos contra outros setores da classe trabalhadora, por meio da tentativa de liberar recursos para pagar o acordo de greve através de cortes em serviços essenciais, inclusive o seguro-saúde.

Se os recursos para o aumento salarial virão dos ricos – como os grevistas reivindicaram – ou dos pobres, vai depender amplamente da capacidade dos trabalhadores da educação da Virgínia Ocidental de continuarem mobilizados nos próximos dias, bem como dos esforços de outros grupos de trabalhadores, dos setores públicos e privados, para tomarem as ruas.
Os grevistas merecem comemorar a sua vitória e descansar um pouco. Mas há um perigo real de que os líderes republicanos tentem aprovar uma lei conservadora enquanto as pessoas estão se recuperando. Financiar o aumento salarial por meio de cortes no orçamento seria um grande retrocesso. Não apenas isso infligiria um pesado dano naqueles que dependem desses serviços, como abriria espaço para uma campanha direitista de “dividir para governar”. A luta, em síntese, está longe de terminar.

Uma dinâmica similar vai marcar a luta para recuperar a PEIA, a agência estadual de seguro de saúde dos funcionários públicos. Essa é uma demanda central, que desempenhou papel-chave na unidade dos funcionários públicos com o restante da classe trabalhadora ao longo dos últimos meses. Nessa frente, o movimento tem um pouco mais de tempo, já que o valor das contribuições está congelado até 2019.

Ainda assim, a força-tarefa organizada pelo governador para encontrar uma solução vai começar a se reunir em 13 de março. Não há razão para acreditar que o governador – que permanece ligado a interesses corporativos – vai voluntariamente ceder à demanda dos grevistas de financiar a PEIA pelo aumento dos impostos sobre o gás natural. Sem um novo levante para fazer com que as corporações de fora do estado paguem, uma solução de longo prazo para a PEIA permanecerá sendo apenas uma miragem.

Ainda que a classe trabalhadora da Virgínia Ocidental tenha se acostumado a confrontar e expor as manobras dos republicanos, ela agora terá que enfrentar novos desafios políticos. Em particular, ainda que as forças do liberalismo e do reformismo oficialista estejam atualmente enfraquecidas na Virgínia Ocidental, essa situação não vai se prolongar por muito tempo.

Em função da debilidade institucional da classe trabalhadora organizada, os dirigentes sindicais não foram capazes nem de prevenir, nem de controlar essa greve. Mas as lideranças do sindicato nacional dos professores buscarão reforçar o seu aparato na medida em que tentam aproveitar a oportunidade organizativa aberta pela vitória da Virgínia Ocidental. Grande parte desse apoio deve ser bem recebido. Recursos humanos e financeiros são necessários para reconstruir um forte movimento sindical combativo. Mas não existe almoço grátis. Com esse apoio, aumentará a pressão para que os trabalhadores da educação da Virgínia Ocidental retornem a formas tradicionais e menos disruptivas de organização e ação.

Adicionalmente, a minoria militante será fortemente pressionada a assumir postos no sindicato. Em muitos casos, isso será politicamente coerente. Mas sem a participação democrática e a organização da base nas escolas, condados e no estado como um todo – e sem superar as divisões fragilizadoras entre três sindicatos estaduais –, eleger até mesmo os melhores militantes será insuficiente para revitalizar os sindicatos da Virgínia Ocidental.

As relações com o Partido Democrático serão ainda mais difíceis de manejar politicamente. Oitenta anos de governo por um Partido Democrático da Virgínia Ocidental corrupto e ligado às corporações culminaram na implosão da influência política e institucional do partido. A Virgínia Ocidental é, agora, um dos chamados “estados vermelhos” [que votam no Partido Republicano]. Então, ainda que as lutas trabalhistas do passado tenham sido travadas contra políticos democratas, os atuais vilões são os republicanos.

Por convicção ou oportunismo eleitoral, a minoria Democrata na legislatura apoiou consistentemente as demandas salariais dos grevistas. O impetuoso senador estadual Richard Ojeda é amplamente visto como um herói pelos trabalhadores da Virgínia Ocidental. Um dos cantos mais comuns nas ruas foi: “Nós lembraremos em novembro” [nas eleições].

Por um lado, a intuição política básica dos grevistas está correta. Os protestos não são suficientes. Para alterar sistematicamente as prioridades do estado da Virgína Ocidental – e do país como um todo – é necessário poder político. Considerando esse fato e o papel desempenhado por Democratas locais durante a greve, é compreensível que a maioria dos trabalhadores da educação vote entusiasticamente nos Democratas em novembro.

O problema, entretanto, é que o Partido Democrata não é um partido da classe trabalhadora, nem a nível estadual, nem nacionalmente. Os políticos Democratas têm um longo histórico de políticas pró-empresariais e promessas quebradas. Os aliados de hoje podem rapidamente se tornar os vira-casacas políticos de amanhã. Tentativas anteriores de “retomar” o Partido Democrático não apenas falharam, como também esforços nesse sentido foram fundamentais para desmobilizar e derrubar sindicatos e movimentos sociais nos anos 1930 e 1960. Mais recentemente, o poderoso levante de 2011 no Wisconsin rumou para a derrota quando os manifestantes giraram a luta para uma campanha mal direcionada para encerrar o mandato do governador [Republicano] Scott Walker.

Manter a independência política dos sindicatos e do movimento mais amplo permanece sendo uma questão essencial. A Virgínia Ocidental demonstrou que lutas de massas podem obter grandes vitórias a despeito de quem esteja no poder. Mesmo se muitos trabalhadores votarem no Partido Democrata em novembro, o movimento dos trabalhadores estará em uma posição melhor para defender os interesses da classe se atuar independentemente e resistir à absorção pelo Partido Democrata.

Um novo movimento trabalhista

Não importa o que aconteça no próximo período, a greve deixou sua marca no curso da história. A população da Virgínia Ocidental mostrou aos trabalhadores de todo o país que é possível vencer com luta.

Vivemos em uma conjuntura histórica particularmente volátil. Após décadas de neoliberalismo, o centro liberal não consegue mais produzir estabilidade. As condições estão mais do que maduras para que os socialistas comecem a luta pelas corações e mentes da maioria trabalhadora. Para citar Emily Comer:

“Se você tiver muitos trabalhadores pressionados até o limite e irritados com uma questão específica, então, é função dos ativistas mostrar a eles que eles merecem algo melhor – e que as vidas deles podem melhorar se eles agirem em torno dessa questão. Se você mostrar o caminho, as pessoas responderão”.

Ninguém tem ilusões de que será fácil reconstruir uma esquerda enraizada em um movimento de luta da classe trabalhadora. Isso requer anos de organização paciente. Nossos inimigos são poderosos – e nós vamos, certamente, passar por muitas derrotas ao longo do caminho. Mas após a Virgínia Ocidental, está claro que um novo movimento trabalhista não é apenas necessário, mas possível.