QUEM SOMOS

Um espectro ronda o Brasil há mais de dois anos: o espectro de Junho. Um novo período da luta de classes foi aberto a partir das jornadas de junho de 2013. Desde aquele processo de manifestações multitudinárias, vivemos sob o influxo de uma polarização não apenas política – esquerdas versus direitas -, mas particularmente social.

 As manifestações reacionárias do primeiro semestre de 2015 e o avanço da pauta conservadora no Congresso Nacional mostraram o quanto junho assustou os setores mais retrógrados das classes dominantes e de seus apoiadores das camadas médias. Mas a resposta mais expressiva dos dominantes veio com a ofensiva contra os direitos dos trabalhadores desencadeada como resposta à crise econômica, em operação comandada pelo governo federal encabeçado pelo PT.

 O espectro de junho, no entanto, continuou a pairar. Desde 2012, vivemos a mais expressiva onda de greves da história recente do país e uma ampliação do papel de diversos movimentos sociais, como aqueles que lutam pelo transporte e pela moradia. Nos últimos meses de 2015, as mobilizações progressivas ganharam um novo patamar, protagonizadas pelas mulheres nas ruas pelo Fora Cunha! e a onda de ocupações dos secundaristas nas escolas estaduais paulistas, somadas a uma greve petroleira em que, pela primeira vez na “Era Lula”, as bases dessa importante categoria questionam sua direção cutista e sustentam uma greve cuja pauta é profundamente política, mesmo com os esforços de desmobilização empreendidos pela direção.

 Acontece que Junho ronda também como um espectro por sobre a esquerda socialista brasileira. No período anterior, tal esquerda foi majoritariamente caracterizada por uma perspectiva eleitoralista, mostrando pouco empenho em reorganizar o movimento sindical e social em geral, com uma sensibilidade muito pequena para as ruas. Sem suficiente acúmulo teórico e organizativo, não pôde passar nem perto de antecipar junho.

 Sem clareza estratégica e carente de um programa alternativo para apresentar em um momento decisivo como aquele, foi confundida com o PT e em alguns momentos chegou a ser expulsa das ruas. Incapaz de construir canais alternativos de comunicação, nem de longe pôde fazer frente à ofensiva ideológica dos monopólios da comunicação. Fragmentada e encantonada, a esquerda socialista partidária, através de suas direções majoritárias, recusou uma alternativa clamada por muitos militantes: a construção de uma frente de esquerda para atuação nos movimentos, que pudesse também se apresentar unificadamente nos momentos eleitorais. Nem mesmo junho foi capaz de despertar a consciência das direções para tal necessidade imperiosa.

 No plano sindical e dos movimentos sociais, o quadro de fragmentação se repete, mesmo diante de uma situação em que os militantes combativos e classistas têm que enfrentar uma máquina burocrática gigantesca, construída nas últimas duas décadas e meia de colaboração de classes de entidades como a CUT e a UNE, fortalecidas desde 2003 pela incorporação ao campo governista de mais e mais movimentos.

 O quadro de ruptura de diversas bases sindicais com suas direções, em greves como as dos garis e rodoviários cariocas em 2014, operários da Construção Civil em diversos estados, ou mais recentemente como na greve dos petroleiros já comentada, ainda não redundou em um fortalecimento significativo de nenhuma das várias iniciativas que buscam impulsionar o processo de reorganização política e organizacional do movimento operário do Brasil. Nem a Intersindical Ferramenta de Luta, Intersindical Central Sindical, Unidos pra Lutar ou a própria CSP, hoje o polo mais dinâmico e combativo deste movimento, conseguiram cumprir o papel de alternativa real para estes trabalhadores.

 Os que estão se reunindo para formar a Nova Organização Socialista são militantes inconformados com esses rumos, mas entusiasmados com as possibilidades colocadas pela conjuntura. A Nova Organização vai unir militantes descontentes com as organizações de onde saíram a outros descontentes com aquelas em que ainda militam, lutando internamente para modificarem-nas. A Nova Organização tem atraído também militantes que não estavam partidariamente organizados, porque não se viam representados nos organismos partidários realmente existentes na esquerda brasileira.

 Nos unifica a certeza de que os partidos revolucionários são uma necessidade da classe. Mas, não nascemos como partido e não reivindicamos este papel. Nossas dimensões são mais modestas, mas o projeto que acalentamos não. Neste momento, reconhecemos os partidos eleitoralmente existentes – PSOL, PSTU e PCB – e outras organizações revolucionárias sem registro partidário eleitoral como legítimos representantes de parcelas da esquerda socialista brasileira. E defendemos sua unidade para intervenção nos espaços dos movimentos sociais e nos momentos eleitorais em uma frente de esquerda socialista. Uma frente essencial para dar maior visibilidade ao projeto socialista, enfrentar o governismo e esclarecer a classe trabalhadora sobre o caráter de classe – dominante – do PT e seus aliados, bem como sobre a necessidade de alternativas partidárias realmente transformadoras.

 Unindo correntes e militantes que atuam no PSOL e outros que não estão filiados ao partido, a Nova Organização Socialista não terá na filiação ao PSOL um critério de pertencimento, pois entende que o espaço aberto por essa organização, hoje a maior da esquerda socialista, é importante e pode ser ocupado. Mas, não é a única forma de intervir politicamente na conjuntura.

 No plano dos movimentos participamos da construção e reivindicamos a CSP como um dos principais espaços de reorganização sindical, o que tem maior potencial de aglutinar sindicatos e outros movimentos de classe, ainda que na própria CSP se manifestem graves tendências burocráticas, que refletem a sua origem no programa e prática estabelecidos na CUT.

 Defendemos ações unitárias com outras centrais e movimentos sociais, em torno de pautas específicas de interesse da classe trabalhadora, como a resistência às medidas de austeridade do “ajuste fiscal” do governo Dilma. Mas, recusamos qualquer tipo de acordo/frente que contenha como princípio explícito ou implícito a sustentação do governo ou a sobrevida das alternativas vindas do PT, responsáveis pelo quadro atual de ataques à classe trabalhadora. O exemplo de como construir unidade na luta sem ceder ao apelo governista já vem sendo dado pelo movimento de mulheres em suas mobilizações e precisa ser estendido aos demais movimentos, especialmente ao sindical, na perspectiva de construção de uma greve geral contra as medidas do “ajuste”.